14 de março de 2017

Roda de Responsa


A roda tem a função de ser sempre agregadora. Mesmo sendo um formato fechado, há sempre espaço para a curiosidade de quem passa, para as palmas de quem se anima, para a compreensão de quem assiste.

Qualquer um pode entrar na roda, qualquer um mesmo. Inclusive – e principalmente – aqueles que são inexistentes aos olhares da sociedade. Os mendigos, os bêbados, os moribundos, os cães e todo o povo das ruas, pois, se uma roda acontece na rua ou numa praça, acontece sim na casa destes. São os anfitriões das constantes festas que muitas vezes nem consentem, por isso a eles pedimos licença e permissão para rodar.
Numa ciranda nos olhamos todos e nos sabemos, nos ritmamos, nos firmamos juntos no importante ato de cantar.
Num jongo, numa roda de coco ou de capoeira, evocamos o jogo, a brincadeira. Quem vai ao centro carrega consigo a responsabilidade de mostrar a quem está de fora, que o brinquedo é pra todos e é necessário deixar o outro com vontade de brincar também... Porque é fácil, porque é bom!
Então o outro vem e tira, e compra o jogo já começado e assume assim a responsabilidade de instigar o outro a estar ali no seu lugar.
Trocar esse fluxo responsável é imprescindível. É um egoísmo muito grande querer estar sempre ao centro. A delícia de brincar é a partilha do brinquedo!!!
Responsável também é quem canta e quem conta. Quem puxa um ponto, um corrido, uma ladainha ou uma história, puxa pra junto de si a função de agregar, ensinando a resposta e o refrão, insinuando os fatos, improvisando, divertindo. Quem canta e conta nunca é triste, mesmo quando sua cantiga é um lamento, o sorriso acolhedor do cantador faz com que o lamento seja partilhado, amenizando a dor de quem sente, dando conforto e mostrando que a roda cura.
Numa roda trocamos energia pelas mãos, pelos pés e pelos olhos e o fluxo é intenso. O movimento faz toda a energia circular. Se temos sons, com tambores ou palmas, fortificamos a roda e a nós mesmos. Todos os nossos ciclos circulares, como somos uma roda d’água, ficam limpos, cristalinos e assim ficamos sempre mais aptos a lidar com o mundo, sabendo das voltas que a vida dá, nos equilibramos com ela e nos resolvemos como viventes. A vida flui dentro da roda!
Se te sentes inseguro, triste, sem vida e estiver andando por aí e encontrar uma roda, de qualquer coisa que seja, numa praça, não hesite em parar e entrar, pois com toda certeza ela te acolherá.


9 de março de 2017

9 de Março

Maria acorda as 5h - porque o marido acorda as 6h - na pontinha dos pés pra não atrapalhar. Na cozinha, no maior silêncio, faz o café, frita dois ovos, depois penteia os longos cabelos para não ser vista descabelada, caminha calmamente até o quarto e o chama. Fosse ontem, no que abria os olhos já ouvia “deixa, amor, hoje é seu dia, eu faço o café pra você!”, uma alegria com fim, que só lhe é de direito em 3 datas: dia da mulher, dia das mães e no seu aniversário. Hoje não, hoje escutou o “já vooooooooooou” de sempre. Acordou a filha mais velha que precisa comer antes pra deixar a louça lavada e que assim o fez. Acordou o menino birrento, que já aos gritos anunciava que não ia pra escola. O pai aos gritos dizia que “vai sim senhor, quer ficar burro???” e assim se fazia normal o começo de dia, mais um de tantos na vida da Maria.
Maria tomou a primeira condução as 7h30 e hoje ninguém quis falar com ela. Fosse ontem, no que pisasse no primeiro degrau do ônibus já recebia um caloroso “Bom dia, parabéns pelo seu dia!” do motorista, acompanhado do sorriso falso do trocador que dava uma piscadinha e consentia com a cabeça e em seguida, ao passar a roleta, um moço novo e bonito lhe entregava um botão de rosa vermelha. Hoje não. Hoje ninguém olha na cara. Hoje não merece nem bom dia.
No trabalho, serviço pesado, zeladora do escritório, Maria volta a trabalhar absolutamente sozinha no andar. Fosse ontem, no que empunhasse a vassoura e o balde, já recebia um grande elogio “Maria que é exemplo, mulher guerreira!!” e, depois, uma oferta de ajuda aqui, acolá “ô Dona Maria, esse balde tá pesado pra senhora, deixa que eu carrego”, “Maria pode deixar que hoje eu mesmo organizo minha mesa”. Hoje não. Hoje o balde continua com o mesmo peso mas ninguém oferece ajuda, hoje a responsabilidade pela própria organização não existe. Até um esporro do chefe Maria levou porque não deu tempo de fazer o cafezinho. Ontem não precisou. Hoje deveria ter prestado atenção e feito mais antes de acabar.
O almoço lhe pagaram ontem, hoje Maria requentou o resto que sobrou do jantar que a filha fez em homenagem. Requentou a lembrança de ontem, o dia calmo, respeitoso, cheio de amor, até o filho lavou a louça à noite e até ela pode tomar uma cervejinha com o marido!
Chega em casa cansada, exausta, acabada. Ontem ganhou massagem nos pés. Hoje não. Beliscou duas bolachas que estavam num pacote aberto largado em cima da mesa e pôs-se a varrer a casa, passar as roupas, checar a lição de casa do mais novo... quando percebe, são 9 da noite e o marido ainda não chegou. Liga, não atende. Entristece. Vê a novela, toma um banho e está disposta a deitar... Liga, não atende. Fosse ontem, depois do jantar em família, de beijos de parabéns, o amor os esperava na cama com direito a cerveja e docinhos. Hoje não. Dorme só.
3 da manhã, o marido chega, bêbado. Fosse ontem, estariam agora com os corpos entrelaçados e suspirando longamente, num sono profundo de casal que se ama a noite toda. Hoje não. Hoje a madrugada é do susto. Da porta abrindo aos chutes e dos gritos “Mariaaaaa!!! Sua puta!!!”. O marido a tira da cama aos coices e puxões de cabelo. Grita sem saber o motivo, sente ódio e o deposita no rosto de Maria com tapas e arranhões. Ontem não teve grito, ontem não teve ódio, ontem não teve briga. Maria senta na cama com as mãos cobrindo o rosto, o choro, a angústia e em meio aos soluços sente que consegue reclamar de algo... olha no fundo dos olhos do marido e, querendo também gritar, sussurra:
- Eu queria que todo dia fosse ontem.

1 de março de 2017

O machismo é um choro entalado na garganta de um homem

O choro é uma das poucas manifestações de sentimento que não conseguiram nos tolher. O machismo não conseguiu, nunca, calar nosso pranto... Mesmo o mais baixinho, escondido pro travesseiro até o barracudo aos berros. Mulher ganhou fama de chorar por qualquer coisas e isso nunca foi uma vergonha pra gente... A gente chora mesmo, chora pra caramba! Chora de dor, chora de rir, chora de vergonha, de ódio, de felicidade. E o homem não. “Homem não chora”, “homem que é homem não chora”. Quase choro de dó de um ser que criou uma cultura tão auto-opressora e que agora não pode mais nem chorar. Já pensou quantos sentimentos não são expressos por conta de uma cultura absurda que é o machismo?? Você homem, já fez as contas de quantos choros engoliu no cinema, na frente dos seus pais, dos amigos, na escola, na rua, no trabalho (NA FRENTE DO SEU CHEFE)??
 Enquanto você engole o choro, a opressão engole você!
Quando eu era professora, percebia que nem os homens que ainda eram muito meninos eram poupados dessa besteira. Pais, mães, profes, todos reprimiam os meninos que choravam na escola. Menina ganhava abraço, carinho, menino ganhava cara feia e sermão: “Que feio, um HOMEM do seu tamanho chorando feito um bebezinho” (quando não era “chorando feito mulherzinha, menininha” e afins machistas). E isso tudo, eu noto, vai se refletindo em outras formas de se expressar. Conheço poucos caras que realmente gargalham, por exemplo. Qual é a necessidade machista de moldar homens insensíveis? Se reproduzir – a máxima biológica com a qual tentam justificar o machismo - que não deve (ou não deveria!) ser. Assim, nessa insensibilidade, indo pra lados mais extremos, surgem as violências. E neste quadro, quem é sensível é sempre “mais fraco”. Porque chora. Porque grita. Porque a forma de resistência sensível dificilmente vai ser responder a um ataque da mesma forma como ele veio. E o homem, ah esse fortão, que não chora, que não abaixa a cabeça pra nada, que não dança e não desenha flores, está lá com as lágrimas e as gargalhadas trancafiadas no nó da gravata apertando na garganta. Pra fora, só murros e pontapés porque é assim que um homem de verdade se expressa. Será?
Quando digo que um homem, qualquer um, deveria chorar mais eu não quero só que ele lembre da morte trágica do cachorro, da conta bancária negativa, do chute na bunda. Quando digo que um homem deveria chorar mais e melhor, eu falo sobre chorar diante de uma pintura no museu sem medo de “parecer bixinha” porque é sensível à arte (aliás, eu nunca entendi o medo que boa parte dos homens hetero tem de “parecer” qualquer coisa como se precisassem o tempo todo justificar ao mundo o que são e o que não são). Eu falo de escutar aquela música que lembra uma viagem e desandar com isso. De ver fotografia e chorar. De ver filme e chorar. De ver desenho e chorar. Ver novela e chorar. De pegar os cadernos da oitava série e ver que tá lá uma tag do cara que era seu melhor amigo e você nem sabe que fim levou. Eu falo de encontrar esse cara e chorarem juntos esse encontro.

Chore e eduque os meninos mais próximos de que pode chorar sim, principalmente de emoção, o choro é livre! E não oprima o choro alheio. Quem chora quer abraço e não cara feia, seja abraço de conforto ou de comemoração, permita que partilhem o choro contigo, chore junto, experimente se compadecer também. Sem essa frescura de “homem não chora”, sem medo, sem machismo pra cima do seu próprio choro, do seu próprio riso, da sua própria emoção, na moral mano, chore mesmo.

22 de fevereiro de 2017

Ilusão x Realidade

Andei me questionando sobre a ilusão e a realidade.
 Os Sutras, os Vedas e a Bíblia nos alertam para tempos difíceis e cheios de ilusão...  e o mais “novo” desses livros já tem pra lá dos seus dois mil anos. O que quero dizer é que as religiões estão alertando (e algumas iludindo ao mesmo tempo) há milênios. Há milênios estamos sob o véu de mãyã. Qual será a parte dos recados que não entendemos?
No Budismo, no Hinduismo e provavelmente em várias outras crenças que não conheço direito, existe o conceito de (anithia) que tudo o que não é divino é passageiro, é ilusão, faz parte do mundo material, são projeções, enfim, irreal. A partir disso, procuro a verdade e tento me ligar apenas com coisas que creio que são divinas. A natureza, a terra, o ar, a água, o fogo, a meditação, o autoconhecimento, a alimentação livre de morte e sofrimento alheio, a bondade, a generosidade e o amor. Tento não pensar/falar mal das pessoas e das coisas (exercício foda!), não me estressar e compreender, não me intoxicar, não ser tóxica... TENTO ser o mais próximo das Divindades o possível. E aí busco um estilo de vida que realmente me aproxime do/a Divino/a e descubra meus olhos do véu de maya.
Mas, ou Maya é incrivelmente disfarçada de realidade ou esse conceito de ser real apenas o que é Divino está esquisito... ou eu que não entendi nada mesmo. Porque o que é a ilusão? Ás vezes eu penso que ilusão é esse mundo vegano-meditativo-ecolindo-espiritual-feminista-de-esquerda que eu criei pra mim e no qual encontro muitas pessoas e juntos formamos uma grande bolha feliz. Como é que eu vou acreditar que isso que eu vivo é se aproximar da verdade absoluta se a vizinha vem me contar que decapitaram um homem e deixaram sua cabeça exposta pendurada em uma árvore?  Se eu leio o jornal e fico com a sensação de que dentro de cada ser humano habita uma capacidade incrível de cometer atrocidades?
Às vezes assisto a uns filmes, principalmente produções brasileiras dos anos 90, que fico pensando que a maioria deles é baseada em alguma realidade (ou em alguma ilusão, sei lá) e que são extremamente pesados, tratando de violências múltiplas, do quanto a gente (humano) é absurdo e nojento. Mas é ilusão. Anithia anithia anithia, disse Buda assim, 3 vezes mesmo, pra provar e comprovar que é tudo passageiro.
Estamos em Kali Yuga, a era das desavenças e do descontrole. Essa é a realidade ou a ilusão?  O caos se instaura a cada segundo nas sociedades... parece que estamos sempre prestes a explodir. Daí me sinto egoísta pra caramba por não querer fazer parte disso e, de verdade, eu me isolo mesmo, não sei outra coisa a fazer! Me entristece profundamente a realidade/ilusão atual.  Vejo vários monges, freiras e yogis fazendo sacrifícios verdadeiros pra que as coisas melhorem. Eles falam em paz no mundo, fim da violência e da desigualdade, cessam a própria alimentação, os movimentos, seus músculos se atrofiam. Vejo muitos grupos de pessoas politizadas se mobilizando, indo às ruas, pedindo intervenção do estado pra que de alguma forma a vida em comum melhore, em qualquer sentido. E,agora  sendo nada divina e bem pessimista, não vejo nada disso dando muito muito certo... parece que Kali não se comove! Quando se consegue algo com muito custo, ainda é pouco, não é o suficiente para que o sofrimento do mundo se acabe de vez (porque sofrer é a sina do ser humano). Será que só vamos ascender prum mundo melhor quando todos os 7 bilhões de viventes dessa Terra sentarem-se em lótus e entoarem Om com a pureza de seus corações? Ou vamos continuar assim e esperar que Jesus volte pra bater o “31-salva todo mundo”? Quantas cabeças mais serão penduradas em árvores? Quantos animais ainda serão colocados pro abate? Quantas mulheres ainda precisarão andar com medo por aí? Quantas guerras por petróleo ou por crença? Quantos muros ainda serão erguidos? Quantos hectares ainda serão desmatados? Quantas vidas? Quantos sacrifícios? Quantos sacrifícios???
Eu disse antes que parece que temos uma capacidade incrível de cometer atrocidades ,mas temos também uma capacidade mais incrível ainda de fazer coisas maravilhosas. Nós somos essencialmente bons, só precisamos alimentar esse viés. Nós pensamos! Não somos animais que agem 100% por instinto e que respondem agressividade com agressividade, amor com amor... nós temos o poder de converter o mau em bom agindo em bondade e benfeitoria. Não quero que esse texto tome forma de bla-bla-bla apelativo emocional, tampouco chegar a uma conclusão do que é o certo a se fazer -  até porque os livros que citei lá no comecinho, com alguma margem de erro,  já deram essa deixa aí pra gente faz tempão - mas sinto a necessidade de terminar isso de um jeito confortável. Os cristão dizem que devemos amar a Deus sobre todas as coisas, alguns Budistas dizem que devemos nos conectar com os Seres para nos afastar do sofrimento, os Vaishnavas dizem que temos que compreender Krishna e desfrutar Dele, os Candomblecistas dizem que devemos ser obedientes as ordens que vem do Orun... Apesar de várias diferenças e divergências entre as crenças, todos dizem que devemos carregar uma divindade junto conosco e parece que a única coisa que  tá faltando é “Deus no coração”. Pode ser que possamos mudar de realidade ou sair da ilusão de um jeito bem mais simples do que se imagina.



29 de janeiro de 2017

Crise de Novo?

São 9 da manhã, o céu está nublado, o que não é novidade na cidade onde moro (ia dizer “onde vivo”... mas às vezes não me sinto muito viva nesta cidade). Visto uma blusa amarela afim de me impor sobre o mau tempo, eu não quero ceder nunca ao cinza triste – quando eu era adolescente, minha mãe me acordava com  um grito de guerra “hei de vencer!”. É claro que sim. Hoje vou rever boa parte dos colegas de turma. 4 meses longe. 3 de férias e mais um mês cansativo em greve. Me sinto um pouco aliviada pelo retorno da rotina, gera uma expectativa, um calorzinho bom.
Chego na sala de aula. Meu mundo amarelo quase cai. Respiração celular e um comando da orientadora para interagir com o ambiente, com as pessoas e a minha disposição é grande mas nada recíproca.  Todos são cinza como o dia. Todos só querem recolher. Eu penso, maldosamente, que não deviam ter saído de casa.
Na roda de conversa, prática comum ao fim da aula, só reclamações, situação de crise de identidade, de profissão, de escolha, todo mundo com problema com o curso logo no primeiro dia de aula e eu me questiono se eu também estou assim. Não estava. Mas a sementinha problemática foi plantada. Eu não vou reclamar da minha vida, da minha sorte, do dia, dos outros, do meu emprego, eu gosto de tudo isso. E, por sempre ser mais prática, diferente da maioria, não gosto muito de reclamar, gosto mesmo é de transmutar.
Ah.. a sementinha da problemática. Ela sempre faz a gente questionar e querer saber por que e como acontecem os empecilhos que aparecem no caminho. Entrei na graduação em Dança em 2012 e não sabia direito o que queria ali, mas estava realizando um sonho antigo. Foi difícil sair de casa, me afastar da família, de um namorado que eu amava muito, das minhas raízes, dos lugares confortáveis, mudar pra uma cidade grande sem conhecer quase ninguém.
Eu cheguei aqui e desbravei os caminhos que muitos já trilharam. Pra mim, um caminho cheio de novidades e tudo o que olho nesse caminho me parece lindo, porque me encanta muito toda brisa que cheira o que não conheço. Fui tentar me construir melhor na dança contemporânea, que permeava a zona de conforto e o curso tem força nisso, os professores unanimemente gostam, seria um bom campo pra continuar meu esforço. Mesmo que muito libertária, não me sentia tão contemplada de corpo e alma. Eu queria mais do que a técnica, mais do que pensar o corpo, os órgãos, o silêncio e a pausa. Precisei, mais uma vez, transmutar pra não reclamar. Fui conhecendo gente, fui vendo as coisas e a rua me levava pros caminhos das tradições. Toda novidade a que me abria tinha relação com o ancestral, com raízes fortes, com origens, com as cachoeiras da minha cidade, com a saudade, com uma linhagem familiar perdida que até agora não consegui conhecer direito. E a sementinha brota... quem sou eu, nisso tudo, afinal?
 As escolhas na dança que venho fazendo desde o fim de 2012, vão me aprofundando num caminho que não dá mais pra saber em que direção estou indo. Quanto mais sigo em frente, mais sinto necessidade de entender o que ficou pra trás e eu nem vi. A relação passado-presente-futuro na construção de uma dança que é “minha” é cada vez mais importante na tentativa de me fazer sentido no mundo. Me observo no passado pensando em técnica, extensão, preocupada em agradar por ter um alongamento, tentando com sofrimento fazer um salto perfeito, na estética de bailarina que nunca tive, sendo cobrada, algumas vezes depreciada mesmo sem sofrer com isso, achava que podia sempre me esforçar mais e mais... Aquela velha mentira sobre perseverança “no pain – no gain”, eu realmente acreditava nessa bobagem. Me observo agora sendo elogiada por entrar numa roda de Coco com alegria, por inovar, pela entrega e dedicação que transpareço quando toco Maracatu, quando estou no Jongo, no Samba de Roda sem peso, sem dor, só respeito, felicidade e curiosidade. Por que isso tudo? Eu penso. Por que ninguém nunca me elogiou quando eu realmente me esforçava ensaiando 4, 5 horas a fio uma coreografia que arregaçou meus joelhos? Qual a relação disso tudo com quem eu sou? Será que essas danças tradicionais, ancestrais, primitivas, estavam arquivadas na minha genética? Eu estou aprendendo algo novo ou resgatando algo que sempre esteve em mim? Volto a pensar no primeiro dia de aula... Isso pra mim é Respiração Celular de fato! É isso! As minhas células respiram assim, respiram a pisada do Toré, respiram a umbigada jongueira, respiram o trupé. As minhas células respiram em compassos de 6 por 8, elas tem um remelexo que não encontro espaço pra mostrar na faculdade, só encontro na rua! E, esperando talvez encontrar uma resposta pro que não se responde, pode ser que eu tenha mesmo errado em sempre escolher o institucional para progredir na arte quando minha arte é feita de gente, chão batido, sol ou lua.

Mas persisto. Não é possível que não exista espaço dentro da universidade pras células que respiram amarelas a alegria de bater mãos e pés. E também, já que falo tanto de raiz, tenho nas minhas veias o brado de minha mãe pela manhã “HEI DE VENCER!”.

18 de maio de 2016

5 sentidos

Me reviro em teu corpo
A manhã surge na janelinha
Mas o sol toma a preguiça
De quem dormiu de cansaço
Desperto sozinha
Te vejo, te cheiro e sorrio
“Bom dia” – Arrepio!
O mate amargo adoça a tarde
Não é o sol - diriam os barrocos -
É a paixão daqui que arde!
Na fração de horizonte
Que os prédios nos deixam ver
Teu beijo me leva pela noite
Tua conversa me leva pela rua
E na cegueira do mundo
E com a alma nua, me vejo ali tão tua
Que não há som
não há luz nem lua
Que não importam os graus
Da distância que nos é nítido
Porque assim, bem de perto,
Sinto que te tenho em sentidos tão certos
Que estremeço

E em cansaço outra vez adormeço.

4 de janeiro de 2016

Falando pra Mim

Quando eu era criança, lembro-me bem, ocupava-me muito pensando sobre a minha idade atual. Aos 9 anos, pensava que seria bailarina do Faustão, bailarina de sucesso ou cantora. Teria filhos, um marido rico e uma casa bem bonita, poderiam ser duas, uma no RJ e uma outra na cidade onde nasci.  Aos 11, saí do ballet e titubeei um pouco entre ser aeromoça ou rapper. Teria filhos, um marido legal que trabalharia no ramo da música, um apartamento em São Paulo. Dos 12 aos 14, me via uma mulher culta, de óculos, formada em jornalismo e eu escreveria crônicas pro jornal da cidade. Teria um filho, não teria marido de jeito nenhum, um apartamento bem pequeno pra não precisar limpar muitas coisas, com playground, no centro da cidade. Aos 15 eu me preocupava bastante, me sentia velha e achava que dalí 10 anos eu seria uma mulher bêbada, com um trabalho que eu não ia gostar nem um pouco mas que me pagaria bem para poder pagar o aluguel. Eu teria uma casa e ela seria suja. Eu não teria um marido, teria sexo casual. Não teria filhos... ou teria? (Se esse pensamento fosse sobre meus 22 ou 23 anos, posso dizer que eu quase acertei... e ainda bem que errei!)
Quando eu era criança, lembro-me bem, ocupava-me muito pensando sobre minha idade atual. Aos 10 anos, percebi que, na verdade, eu era míope e dependeria dos óculos pra sempre, tinha dentes muito grandes, meus seios eram enormes pra minha idade, minha coluna era meio arcada, eu era baixinha e tinha vergonha. Descobri que eu nunca seria bonita o suficiente para ser bailarina de coisa alguma. Desisti. Aos 12, como consequência, compreendi que não atenderia ao pedido de 1,70 de altura na fase adulta para ser aeromoça e também não sabia fazer muitas rimas de improviso, seria um treino e tanto e talvez eu gostasse de fazer algo mais sossegado. Desisti, ser rapper não deve ser sossegado. Então me via uma mulher culta e séria demais, fui percebendo quantas rugas eu imaginava que eu teria com 25 anos... talvez não fosse esse semblante de preocupação que eu quisesse. Desisti. Aos 16 eu bebi, tive sexo casual e não limpei o meu quarto como a mulher que eu esperava ser dali 10 anos, já me via meio que desistindo da vida.
Minha última ambição foi fazer Dança na faculdade. Com 16 anos. Por quê? Não sei. Descobri que existia o curso e fiquei interessada...eu gostava muito de dançar, é minha paixão maior, sempre gostei. Deixei passar. Fiz Artes Visuais e por alguns instantes até sonhei em ser professora. Desisti. Durante um bom tempo fui sendo e aprendendo a ser outras coisas e desistindo também. Fui artesã, fui professora, consegui dançar algumas vezes profissionalmente, fui artista de circo, fui atriz, fui vendedora, fui atendente de lan house, fui professora mais outras várias vezes de coisas diferentes.
Quando me perguntavam o que eu queria fazer da vida, eu me sentia na obrigação de querer algo, então repetia o que pensava que queria aos 16... Dança... e repetia o que minha família queria de mim: graduação, diploma, mestrado, sucesso.
Com 21 mudei de cidade e comecei a tal graduação de Dança. Desisti. Desisti algumas vezes, aliás. Por uns dias, por uns segundos, por uma semana inteira. Nesse meio tempo fui sendo professora de novo, recreadora, palhaça, pesquisadora, balconista, garçonete, freelancer, algo que dê dinheiro (nunca consegui uma bolsa na faculdade)... e triste. Triste??? Como pode alguém “sonhar” com algo desde os 16 anos e ao ponto de realizar tornar-se triste? Pois é, eu também não sei – respondia pra mim mesma. Pensei que eram os problemas do curso, da faculdade, que me deixavam assim. Lutei e bradei por melhoras (que vejo sendo conquistadas até hoje), participei de debates, fui pra cima, militei. Desisti.
E na obrigação social do “querer” ia só querendo morrer pra não dar trabalho. Eu tinha que querer algo, afinal.
Quis pesquisar mais, quis ter dinheiro, quis me empenhar mais, quis um currículo Lattes, quis um diploma com pressa, quis entrar em algum programa de bolsa, quis ter dinheiro, quis xerocar todos os textos, quis concluir pelo menos o estágio, quis ter dinheiro, quis fazer de conta que tava tudo certo, quis ser normal como os meus colegas. Desisti.
Ao longo das minhas desistências profissionais eu também desisti de algumas companhias e de alguns lugares que ilusoriamente me faziam bem. Desisti de beber. Desisti de deixar tudo bagunçado. Desisti de repetir. Desisti de brigar com o despertador e aceitei acordar cedo. Desisti de ficar até de madrugada no computador. Desisti do apartamento. Desisti do confinamento e fui lá fora ver a vida um pouco. Desisti do açúcar, do trigo, do café em excesso. Desisti do dia inteiro deitada. Desisti de trocar o dia pela noite. Desisti de morrer. Desisti de querer.
Numa sequencia de desistências infinitas, desistir de querer foi a minha melhor desistência e então, tornei-me louca. Engraçado, não é? Quando desisti de querer ser algo é que fui me tornar algo. Louca! Dessas loucas mesmo que abraça árvore e mendigo, dá bom dia pro sol e agradece a presença, planta árvores frutíferas na rua, respira fundo e acha importante, prefere dormir no chão do que em cama mole, gosta de dançar atoa, vai no boteco e não bebe, ri de tudo, gargalha, se emociona com a oração na hora da refeição, diz que percebe presença divina, acredita que o mundo tem salvação, não cria relação afetiva com muitos objetos, não gosta muito de dinheiro, acha confortável a simplicidade. Sim, bem esse tipo de louca! Essa que está errada em não querer mais nada e que aceita de bom grado o que vier.

Quando eu era criança, lembro-me bem, ocupava-me muito pensando sobre minha idade atual e eu nunca na vida pensei que seria exatamente como eu sou: louca. E, sinceramente, se eu pudesse voltar no tempo e dizer algo pra mim mesma quando eu era criança, eu diria: Goste você ou não, Amelu, eu pretendo continuar assim.

2 de fevereiro de 2015

Be-Ó na Constantino

Segunda-feira, hora do almoço, correria, banco, fila, dinheiro, desconto, aluguel, calor, rua lotada de gente tão fodida e apressada quanto eu. Respiro. A cidade. Essa é a cidade.
Escuto passos apertados, logo em frente vejo gente parando, aglomerando, giroflex, confusão. O que será que aconteceu? “Parece que foi a mão armada”, “parece que era arma de mentira”, parece a polícia. Aparecia muita gente, muita coisa.
Bairro nobre da cidade, avenida principal, as madames escondem o semblante indignado atrás das unhas bem feitas, dos cabelos escovados, dos imensos óculos de sol, agarradas com os dois braços nas enormes bolsas que carregam o poder em forma de papéis, cartões e contra-cheques. Penso maldade. Não dá tempo de conferir, a fila é grande, o intervalo é curto.
Minha cabeça em parafuso, os olhos confusos, meio ceguetas já – tem tempo que não vou ao oculista, é caro, o óculos de grau atrasado – em câmera lenta, focam com dificuldade dois moleques do outro lado da rua. O menorzinho tem os olhos azuis cheios de um mar em dia de tempestade. As mãos sendo forçadas para trás por um senhor fardado que tinha idade pra ser seu avô. Caminho de vagar, vejo o mar naqueles olhinhos e lembro que hoje é dia de Iemanjá. Penso na mãe do menino.
Algema os pulsos do seu neto, senhor. Da forma cruel como te ensinaram a fazer. Da forma como senhor gosta, aprendeu a gostar, sem pudor. Não se importe se é criança, se chora, se grita, se reza, se se arrepende, se não fez nada. Não interessa. As madames e os homens de terno querem justiça, querem ver a truculência justa com que é tratada a desigualdade, o não-ter, a necessidade, a diferença. Apontam e gritam, escrotos, sacolejam as joias, aplaudem a polícia e eu aperto o passo, o patrão e o aluguel não querem saber das coisas que eu vejo por aí.
Caminho de volta na minha rota, é só uma passadinha rápida ali, não vai dar tempo, não vai dar tempo. Faço o que tenho que fazer, eu quero ir lá olhar.
Passo agora pelo mesmo lado da rua. Tem mais carro parado, mais luz, mais polícia, tem mais madame, mais lojista, tem mais muvuca e ao mesmíssimo tempo não tem ninguém. “Parece que ele gritava”, “parece que queriam fugir”. O mundo dá aquela parada de quando a gente vê alguma coisa muito terrível. Os dois de joelhos na calçada, algemados, com a testa colada numa placa que faz propaganda da ótima mobilidade urbana da cidade, os protetores da lei apontam quatro armas para aquelas duas pequeninas cabeças. Vão executar? Agora? Assim, de dia, em público?? Isso sim seria o ápice do orgasmo daquelas madames nos consultórios de psicanalistas ao entardecer, nos salões chiques da avenida. Penso de novo na mãe dos meninos... acho que ando muito maternal. Não consigo perguntar. Preciso ir.
Subo numa transversal, parte mais residencial, caminho apressada, quase corro, suada, pálida, gasta e do outro lado das grades de um condomínio luxuoso posso ver dois moleques sentados, provavelmente da mesma idade daqueles de lá. Um faz o beatbox e o outro manda uma rima. Vejo os olhos com a cor do mar calmo das férias de quem tem dinheiro.  Eu não escuto mas, pela expressão, o rap segue nervoso. Nervosamente sem nenhuma influência da rua, da correria, da quebrada, da desigualdade. Bonito no sofrimento online, a confortável reclamação pré-adolescente. Eu estou mesmo nessa merda de mundo. Meia hora de atraso, meu chefe vai me matar.


27 de janeiro de 2015

E mesmo sabendo de tudo,
Mesmo mentalmente,
Quando acha bonito
A alma não mente.
Naturalmente...
Do papel pra vida
É mais envolvente
E me via envolvida
Em cada palavra sabida
Em cada gesto consciente
Do início à partida
Do pé frio ao coração quente.

23 de julho de 2014

Festa no Céu

Ariano e o Ciência
se juntaram no mangue do céu
pra partir histórias de chão. 
Um conta, o outro inventa
Um começa, o outro aumenta
O outro mistura e um lamenta.

Os anjos ouvindo a confusão
botaram o céu todo estrelado
e se fez enorme clarão
Pois estavam lado a lado
o Armorial e o Manguebit
entoando uma bela canção.