16 de fevereiro de 2006

Parada Solicitada

Embarcam jeitos, gentes, corpos, formas, movimentos, todos diferentes, estranhos. Descem alguns, fica quem quer.
Á minha frente uma senhora que parece rezar. Apenas parece, na verdade, só lê as frases que encontra nas placas e vitrines das lojas... Ou, quem sabe, está rezando mesmo...
Mais adiante, um bêbado que conversa com alguém que não vemos, mas que está ao seu lado.
Um pouco mais ali, uma criança que canta parabéns, possivelmente para o "alguém" que o bêbado pensa que vê... e a criança vê. Ao lado vai a mãe, que só falta pedir de joelhos para que a criança fique quietinha e ela possa seguir sua viagem tranqüilamente."Por que será que as campainhas dos ônibus não fazem 'dim dom' como as das casas?"
Embarcam saltos, chinelos, sacolas, mochilas, cadernos, gritos e mais toda a confusão da rua. Descem alguns, fica quem quer.
A senhora continua a rezar, digo, continua a ler placas, o bêbado desceu cambaleando, totalmente torto o coitado, seu amigo imaginário ficou e a criança continua a cantar-lhe, alegremente, os parabéns.
É engraçado, as pessoas vêm e vão e pouca coisa muda dentro de um ônibus. Ás vezes lota, ás vezes não, a viagem continua sempre a mesma, sempre com um destino para cada passageiro, até mesmo para os sem destino."Por que será que não existe nenhum ônibus que vá direto pra casa?"
A multidão se atrapalha, é tanta coisa, é tanta fala, tanta voz, tudo ao mesmo tempo. Lombada, buraco, subida que desce, descida que sobe, sem falar na chuva que não pára mais de cair!
De repente, o silêncio... Não se ouve mais cantoria, nem fala, nem sussurro, nem reza. Apenas o balanço... 'vruuummm'. As rodas deslizando no asfalto, a chuva batendo na janela, querendo entrar. O silêncio... Ah, o doce e ensurdecedor silêncio... A paz infernal do silêncio...
'PARADA SOLICITADA', as pessoas levantam, uns ajeitam os cabelos, outros colocam as mochilas nas costas, aqueles pegam as sacolas, se espreguiçam, bocejam...
Descem todos, não embarca ninguém.

Um comentário:

Escolástico Saudoso disse...

Olá, garota observadora por ser poeta ou poeta por ser observadora, não interessa. O fato é que ao ler o que escreveu senti-me como se estivesse junto, viajando naquele onibus. O modo como detalhou o desembarque, quando cada um da sua maneira se ajeita, é muito fiel, entre tantas observações que fizeras. Parabéns pelo prêmio conquistado.
Abraços.