10 de setembro de 2006

Pintor de Rodapés

Chegou na banquinha, comprou uma carteira de cigarros de menta, guardou na mochila e saiu.
Andou sozinho pela praça que estava sendo pintada, deu uma olhada no trabalho dos pintores, parou, avaliou, pensou um pouco e resolveu que a partir daquele dia se tornaria o melhor pintor de rodapés do mundo. Só que havia um problema: era muito alto. Mesmo com tal agravante, estava decidido do que queria. Acendeu um cigarro e voltou para casa.
Logo que chegou em casa, começou a treinar as pernas e a coluna para conseguir mais flexibilidade. Fez alguns exercí­cios de aquecimento, alongamento. Se esticou o máximo que pode para depois conseguir encolher-se de tal forma que quase sumisse. Era essa a intenção.
Percebeu que era um fracasso. Não conseguia se quer chegar a ficar na metade do seu tamanho normal. Sabem o quanto isso é duro para quem pretende se tornar o melhor pintor de rodapés do mundo??? Acendeu três cigarros, um em seguida do outro. Sentou-se no chão e ficou meditanto e tentando adivinhar porque é que Deus não havia o feito alguns centí­metros menor.
Desde criança a coisa que mais o incomodava era a altura. Nunca fora tido como criança de verdade porque nunca fora pequeno o suficiente para ser criança. Uma infância totalmente infeliz.
Na adolescencia sofria muito com isso porque nenhuma garota o alcançava e ele detestava ficar sentado para dar uns amassos. A sorte é que nesta época aprendeu que na horizontal não fazia diferença alguma. Mas, do mesmo jeito, sofria. E agora, homem feito que era, sofria ainda mais por não ter jeito algum para levar a profissão que queria.
Ele não tinha a mí­nima vontade de fazer algum tipo de cirurgia para diminuir, e também, isso sairia extremamente caro para alguém que almeja, apenas, ser um pintor de rodapés.
Certo que não seja só um pintor de rodapés, que seja o melhor pintor de rodapés do mundo mas, mesmo assim, ainda sairia caro.
Depois de fumar todo o maço de cigarros de menta decidiu que, já que não havia meios para se tornar o que queria, não iria mudar de sonho nem iria cortar as pernas para conseguir realizá-lo.
Pegou algumas tintas e pincel, um pedaço de tábua e escreveu: "Aqui Jaz O Melhor Pintor de Rodapés do Mundo". Cavou um buraco bem fundo, atirou o pincel e as tintas e depois se jogou lá dentro.
Assim, sem mais, foi pintar rodapés de nuvens no céu ou em algum outro lugar.

Um comentário:

Néscio Sakana disse...

Vc precisa conhecer o escritor Inácio de Loyola Brandão. com uma linguagem aparentemente desconexa ele consegue dar múltiplos sentidos às suas estórias. Não me lembro o nome do livro que li, mas achei muito pirado. Senti uma certa semelhança entre vcs dois.

Legal, parabéns é bem interessante.